Acesso radial ou femoral: como o intervencionista escolhe a melhor via para tratamentos endovasculares?
A escolha do acesso vascular é uma das decisões fundamentais no planejamento de um procedimento endovascular.
Embora o acesso femoral permaneça amplamente utilizado, o acesso radial distal vem ganhando espaço em determinadas intervenções, impulsionado pela busca por segurança vascular, conforto do paciente e alternativas técnicas para alcançar diferentes territórios arteriais.
Mas qual dessas vias oferece os melhores resultados? A resposta depende da anatomia vascular, do território que será tratado, da complexidade da intervenção e das características clínicas de cada paciente. Para o radiologista intervencionista, a decisão não se resume à escolha entre duas artérias: trata-se de definir a estratégia que permita executar o procedimento com segurança e eficácia.
As vantagens da via radial podem ser organizadas em três níveis — clínico, técnico e de conforto do paciente —, o que ajuda a entender por que ela vem sendo incorporada à prática intervencionista e, ao mesmo tempo, em que situações a via femoral continua sendo a mais adequada.
Por que considerar a via radial? Vantagens em três níveis
Os benefícios do acesso pela artéria radial — seja na técnica convencional, no punho, seja na técnica distal, na tabaqueira anatômica — podem ser organizados em uma hierarquia: vantagens clínicas, técnicas e relacionadas ao conforto do paciente. Boa parte desses dados vem da experiência acumulada com a via radial convencional, sobretudo na cardiologia intervencionista, e é estendida à via radial distal, que compartilha o mesmo racional.
Vantagens de primeira ordem: menor morbimortalidade
O principal argumento a favor da via radial é clínico. Por se tratar de uma artéria superficial, facilmente compressível contra estruturas ósseas, o sangramento no sítio de punção é mais fácil de prevenir e de controlar, e não há o risco de hemorragia retroperitoneal associado à punção femoral. Na experiência coronariana, as complicações relacionadas ao sítio de acesso ocorrem em aproximadamente 1,5% dos casos com a via radial, contra cerca de 6% com a via femoral — uma redução de cerca de quatro vezes, que se traduz em menor morbimortalidade.
Esse benefício é particularmente relevante em pacientes com maior risco hemorrágico ou com sítio femoral desfavorável: portadores de coagulopatia ou plaquetopenia, pacientes em uso de anticoagulantes, submetidos a terapia trombolítica e pacientes obesos, nos quais a punção e a compressão femoral são tecnicamente mais difíceis e menos eficazes.
Vantagens de segunda ordem: técnicas
A via radial também pode oferecer vantagens técnicas em cenários anatômicos específicos. Em pacientes com doença aterosclerótica aortoilíaca grave, ela permite contornar segmentos estenóticos, ocluídos ou muito tortuosos que dificultariam a progressão dos dispositivos a partir da virilha. Em intervenções supra-aórticas e neurovasculares, o acesso pelo membro superior pode simplificar a navegação em casos de arco aórtico hostil, oferecer acesso direto às artérias vertebrais e facilitar o cateterismo da artéria carótida comum esquerda em pacientes com arco bovino. Além disso, a localização superficial da artéria permite hemostasia praticamente imediata por compressão local, sem necessidade de dispositivos de fechamento vascular.
Vantagens de terceira ordem: conforto do paciente e eficiência hospitalar
Por fim, a via radial modifica a experiência do paciente após o procedimento. Como não é necessário repouso prolongado em decúbito com o membro inferior imobilizado, o paciente pode permanecer sentado durante a recuperação e deambular precocemente. Isso possibilita alta hospitalar mais rápida — em muitos casos em menos de duas horas —, maior rotatividade de leitos e menor custo hospitalar. Os pacientes também referem menos dor e maior conforto em comparação com o acesso femoral.
Essas vantagens, no entanto, precisam ser ponderadas frente às limitações da via radial, especialmente o calibre arterial, a maior distância até os territórios infrainguinais e a compatibilidade dos materiais disponíveis.
Por que o acesso femoral continua sendo tão utilizado?
O acesso femoral é realizado pela punção da artéria femoral, geralmente na região da virilha. Sua ampla utilização está relacionada à familiaridade da técnica, à possibilidade de empregar dispositivos de maior calibre e ao trajeto vascular favorável para alcançar diversos territórios arteriais.
Em determinadas intervenções nos membros inferiores, especialmente quando há lesões extensas ou oclusões complexas, a via femoral pode oferecer vantagens técnicas. Ela também pode ser necessária quando o procedimento exige materiais ou configurações de acesso que não são adequados à via radial.
Por outro lado, o acesso femoral apresenta riscos específicos, como hematoma, sangramento, pseudoaneurisma e, em situações menos frequentes, hemorragia retroperitoneal. A anatomia local, a presença de doença arterial e as condições clínicas do paciente podem aumentar a complexidade da punção e da hemostasia. Além disso, a hemostasia femoral costuma exigir compressão prolongada ou dispositivos de fechamento vascular, seguidos de repouso no leito por algumas horas, o que retarda a deambulação e a alta hospitalar.
Portanto, apesar de ser uma via consolidada, o acesso femoral também exige planejamento cuidadoso e avaliação individualizada dos riscos.
O que é o acesso radial distal?
O acesso radial distal é realizado na porção distal da artéria radial, geralmente na região da tabaqueira anatômica, localizada no dorso da mão, próxima à base do polegar. Diferentemente do acesso radial convencional, realizado na região do punho, essa abordagem utiliza um segmento arterial mais distal para introduzir os dispositivos endovasculares.
A técnica tem sido estudada como alternativa para procedimentos coronarianos e determinadas intervenções periféricas e viscerais. Entre suas possíveis vantagens estão a facilidade de compressão após a retirada dos dispositivos e a preservação potencial do segmento radial proximal, que pode permanecer disponível para futuras intervenções ou para outras necessidades vasculares.
Entretanto, o menor calibre da artéria radial distal pode tornar a punção e a introdução dos dispositivos mais desafiadoras. Por isso, a seleção dos pacientes, a avaliação anatômica e a experiência do operador são fatores importantes para o sucesso técnico.
Quais critérios orientam a escolha do acesso vascular?
A decisão entre acesso radial distal e femoral deve considerar diferentes aspectos clínicos e técnicos. Entre os principais critérios estão:
1. Território vascular a ser tratado
A localização da lesão e o trajeto necessário para alcançá-la influenciam diretamente a escolha. Uma via adequada para uma intervenção visceral pode não oferecer as mesmas condições para o tratamento de uma oclusão arterial extensa em um membro inferior. Em intervenções supra-aórticas, por exemplo, o acesso pelo membro superior pode oferecer um trajeto mais direto às artérias vertebrais ou à carótida esquerda em arcos bovinos; já em lesões distais dos membros inferiores, a distância a partir da mão pode limitar o alcance dos cateteres e dispositivos disponíveis.
2. Anatomia e calibre arterial
O diâmetro dos vasos, a presença de tortuosidades, estenoses, calcificações e o histórico de procedimentos anteriores precisam ser considerados. No acesso radial distal, o calibre arterial é especialmente relevante para determinar a viabilidade da introdução dos dispositivos. Em contrapartida, doença aterosclerótica aortoilíaca grave ou arco aórtico desfavorável podem tornar a via radial a opção tecnicamente mais simples.
3. Complexidade do procedimento
A extensão da doença, a necessidade de cruzar oclusões crônicas, localização da lesão a ser tratada, tortuosidade dos vasos distais, o tipo de cateter utilizado e a possibilidade de empregar acessos complementares podem favorecer uma via em detrimento da outra.
4. Risco de complicações vasculares
O intervencionista avalia fatores relacionados ao sangramento, à hemostasia e à possibilidade de complicações no local da punção. A compressibilidade do sítio de acesso e a necessidade de preservar determinados segmentos arteriais também podem influenciar a decisão. Em pacientes com coagulopatia, plaquetopenia, em uso de anticoagulantes ou trombolíticos, e em pacientes obesos, o menor risco de sangramento da via radial tende a pesar a favor dessa abordagem.
5. Experiência da equipe e recursos disponíveis
A familiaridade do operador com cada técnica, a disponibilidade de materiais compatíveis e a possibilidade de conversão para outra via são elementos relevantes para o planejamento seguro da intervenção.
6. Recuperação e logística assistencial
O tempo de repouso após o procedimento, a possibilidade de deambulação precoce e de alta no mesmo dia, o conforto do paciente e o impacto sobre a ocupação de leitos e os custos hospitalares também entram na equação — especialmente em procedimentos eletivos e em serviços com alta demanda.
O que dizem os estudos científicos sobre acesso radial distal e femoral?
A literatura científica apresenta resultados promissores para o acesso radial distal, mas também demonstra que seus benefícios dependem do contexto clínico e do tipo de procedimento.
Em uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025, que reuniu 14 estudos sobre intervenções endovasculares periféricas não coronarianas, a taxa agrupada de sucesso técnico do acesso radial distal foi de 97,4%. A prevalência agrupada de eventos adversos foi de 2,3%. Contudo, os estudos apresentaram heterogeneidade elevada e limitações metodológicas, o que exige cautela na interpretação desses resultados.
Já um estudo comparativo publicado na revista Angiology avaliou 102 intervenções realizadas por acesso radial distal ou femoral. Embora a punção tenha sido bem-sucedida nos dois grupos, o sucesso do procedimento foi maior no grupo femoral, especialmente no contexto das intervenções em membros inferiores. O tempo operatório também foi maior com o acesso radial distal.
Em outra pesquisa, envolvendo intervenções na artéria femoral superficial, o acesso radial distal apresentou elevada taxa de sucesso técnico, comparável à observada com o acesso radial proximal. Esse resultado demonstra a viabilidade da abordagem em situações selecionadas, mas não estabelece superioridade sobre o acesso femoral.
Em conjunto, essas evidências reforçam um princípio importante: a avaliação dos resultados deve considerar não apenas o local da punção, mas também o procedimento realizado, a seleção dos pacientes e a experiência da equipe.
Acesso radial distal ou femoral: existe uma técnica superior?
Não existe uma resposta universal. O acesso radial distal pode ser vantajoso em situações selecionadas, sobretudo quando suas características anatômicas e operacionais favorecem a intervenção. O acesso femoral, por sua vez, continua sendo uma opção fundamental para procedimentos que exigem maior suporte, dispositivos específicos ou um trajeto mais favorável até o território tratado.
A escolha deve equilibrar viabilidade técnica, segurança vascular, complexidade do tratamento e necessidades individuais do paciente. Em determinados casos, a utilização de acessos complementares ou a conversão para outra via também pode fazer parte da estratégia planejada.
Mais do que estabelecer uma preferência fixa, cabe ao radiologista intervencionista integrar os achados de imagem, as características da doença vascular e os recursos disponíveis para selecionar a via mais apropriada.
Conclusão
A escolha entre acesso radial distal e femoral é parte essencial do planejamento dos tratamentos endovasculares. As evidências disponíveis apoiam o uso do acesso radial distal em procedimentos selecionados, mas não justificam sua adoção indiscriminada em substituição à via femoral.
A via radial oferece vantagens em três níveis: menor morbimortalidade, sobretudo em pacientes com alto risco de sangramento; benefícios técnicos em anatomias aortoilíacas ou de arco aórtico desfavoráveis; e maior conforto, com deambulação precoce e alta mais rápida. Essas vantagens, porém, precisam ser pesadas contra as limitações de calibre, distância e compatibilidade de materiais, que mantêm a via femoral como opção fundamental em muitos procedimentos.
Uma decisão fundamentada na anatomia vascular, na complexidade da intervenção e no perfil clínico do paciente permite individualizar a estratégia e buscar os melhores resultados possíveis. Nesse cenário, a atualização científica e o domínio de diferentes técnicas de acesso permanecem fundamentais para a prática da radiologia intervencionista.
Referências:
Ferrante et al. J A C C, July 25, 2016: 1419-34
Rentiya et al. Interv Neuroradiol 2024;30(3):404-411
Mortezaei et al. J of Neuroradiol 2025; vol 52, Issue 5
Batista et al. The Neuroradiology Journal 2024:546-555
Perng et al. Clin Neuroradiol 2024;34:3-12
Escrito por:
Dr. Luis Henrique Castro Afonso
CRM/SP 121.961 - RQE 30.564 / 30.564-1

