Outubro Rosa: como a Radiologia Intervencionista pode atuar em tumores ginecológicos

O Outubro Rosa reforça o tema do câncer de mama na prevenção, diagnóstico e tratamento.  Aproveitando ser um mês de foco para a saúde feminina de maneira geral, esse mês também abre a oportunidade para conscientizarmos sobre outros tumores ginecológicos, como os de colo do útero, endométrio e ovários que também exigem atenção.

Para cada um dos casos, os tratamentos dependem do tipo e do estágio da doença. Nesse contexto, a Radiologia Intervencionista pode contribuir com procedimentos minimamente invasivos voltados ao diagnóstico, ao controle de complicações e, em situações específicas, ao tratamento de lesões tumorais.

Esse artigo tem como objetivo introduzir o leitor a esse universo, municiando mulheres com o básico para que busquem avaliação e orientação médica individualizada.

Como a Radiologia Intervencionista pode contribuir no tratamento de tumores ginecológicos?

A atuação da especialidade não é igual para todos os tumores ginecológicos. Em algumas situações, sua principal contribuição está no diagnóstico; em outras, no controle de complicações ou no tratamento de lesões selecionadas.

1. Biópsias guiadas por imagem: contribuindo para o diagnóstico

A confirmação do tipo de tumor é uma etapa fundamental para definir a estratégia terapêutica. Em determinadas lesões ginecológicas, a Radiologia Intervencionista pode realizar biópsias percutâneas guiadas por ultrassonografia ou tomografia computadorizada.

Durante o procedimento, o médico utiliza as imagens para direcionar uma agulha até a região de interesse e obter uma amostra de tecido, que será encaminhada para análise anatomopatológica.

Essa abordagem pode ser útil quando a lesão está localizada em uma região de difícil acesso ou quando é necessário investigar uma massa ou um possível foco de disseminação da doença. A escolha da técnica depende da localização, dos riscos envolvidos e da possibilidade de obter uma amostra adequada.

É importante destacar que nem todo tumor ginecológico exige uma biópsia percutânea. A forma de confirmação diagnóstica varia conforme o órgão acometido e a suspeita clínica.

2. Embolização: controle de sangramentos relacionados ao tumor

A embolização é um dos procedimentos mais relevantes da Radiologia Intervencionista no controle de determinadas hemorragias.

A técnica consiste na introdução de um cateter em um vaso sanguíneo, geralmente por meio de uma pequena punção arterial. Com auxílio da angiografia, o médico identifica os vasos responsáveis pelo sangramento e libera materiais específicos para interromper ou reduzir o fluxo sanguíneo naquele local.

Em pacientes com câncer do colo do útero, por exemplo, a embolização seletiva pode ser considerada para controlar sangramentos vaginais importantes relacionados à doença, especialmente em situações avançadas ou quando outras medidas não são suficientes ou adequadas.

As diretrizes europeias para o manejo do câncer do colo do útero incluem a embolização seletiva entre as opções que podem ser consideradas para o controle de sangramentos, ao lado de outras intervenções, como o tamponamento vaginal e a radioterapia paliativa, quando indicada.

A escolha depende da intensidade da hemorragia, das condições clínicas da paciente, dos tratamentos já realizados e da disponibilidade das alternativas terapêuticas.

Nesses casos, o objetivo da embolização é controlar o sangramento e contribuir para a estabilização clínica. Ela não deve ser confundida com um tratamento curativo do câncer, pois interromper o fluxo sanguíneo de determinados vasos não significa necessariamente eliminar o tumor.

3. Tratamentos direcionados à vascularização tumoral

Alguns tumores apresentam uma rede de vasos sanguíneos que contribui para seu crescimento. Em situações selecionadas, técnicas endovasculares podem ser utilizadas para interferir nessa vascularização ou administrar agentes terapêuticos diretamente em determinados territórios vasculares.

A embolização e a quimioembolização são exemplos de procedimentos empregados em contextos específicos da oncologia. Na quimioembolização, um agente quimioterápico é administrado por via arterial, associado à oclusão dos vasos que irrigam a lesão.

Entretanto, a aplicação dessas técnicas varia significativamente conforme o tipo de câncer. A quimioembolização é mais estabelecida em determinados tumores, como os hepáticos, e não constitui um tratamento padrão para todos os cânceres ginecológicos.

Por isso, sua eventual utilização em tumores ginecológicos exige avaliação individualizada, considerando o órgão acometido, a extensão da doença, os tratamentos prévios e as evidências científicas disponíveis para aquela indicação.

4. Tratamento de complicações causadas pelo tumor

Além das intervenções dirigidas à lesão tumoral, a Radiologia Intervencionista pode contribuir para o manejo de complicações que afetam a qualidade de vida e a evolução clínica das pacientes.

Um exemplo é a obstrução das vias urinárias provocada pela compressão de estruturas próximas ao tumor. Quando essa obstrução compromete a drenagem da urina e a função renal, pode ser necessária uma intervenção para restabelecer seu escoamento.

Em situações selecionadas, a nefrostomia percutânea permite a drenagem da urina diretamente do rim por meio de um cateter introduzido através da pele, com orientação por imagem.

Esse procedimento não elimina o câncer, mas pode aliviar a obstrução e ajudar a preservar a função renal, integrando o cuidado de suporte à paciente oncológica.

A necessidade da intervenção e a melhor estratégia devem ser avaliadas de acordo com o quadro clínico, a anatomia e os objetivos gerais do tratamento.

Radiologia Intervencionista substitui a cirurgia convencional?

Não. A Radiologia Intervencionista complementa as opções de tratamento dos tumores ginecológicos, mas não substitui automaticamente a cirurgia, a quimioterapia ou a radioterapia.

A escolha depende do tipo e do estágio do tumor, das condições clínicas da paciente e dos objetivos do tratamento. Por isso, a avaliação multidisciplinar é fundamental para definir a abordagem mais adequada a cada caso.

Informação e diagnóstico oportuno fazem a diferença

O Outubro Rosa reforça a importância da conscientização sobre o câncer e do cuidado integral com a saúde feminina. Nesse contexto, a Radiologia Intervencionista pode contribuir para o diagnóstico e o controle de complicações, além de integrar o tratamento de situações oncológicas específicas.

Diante de sintomas persistentes ou sangramentos ginecológicos anormais, é importante procurar avaliação médica para investigação adequada. O diagnóstico oportuno e a escolha individualizada do tratamento são fundamentais para orientar o cuidado.

CIBULA, D. et al. ESGO/ESTRO/ESP Guidelines for the management of patients with cervical cancer: update 2023. International Journal of Gynecological Cancer, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1136/ijgc-2023-004429.

INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Radiologia Intervencionista em Oncologia. Disponível em: https://www.gov.br/inca/ptbr/assuntos/ensino/cursos/aperfeicoamento/radiologia-intervencionista-em-oncologia.

INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Radiologia Intervencionista e Angiorradiologia em Oncologia. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/ensino/cursos/aperfeicoamento-nos-moldes-fellow/radiologia-intervencionista-e-angiorradiologia-em-oncologia.

Escrito por:

Dr. Guilherme Borghini Pazuello
CRM/SP 150.726 - RQE 88.059 / 121.773

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